sábado, 7 de novembro de 2009

Aerossóis tornam metano mais perigoso para clima, diz estudo

(The New York Times / Terra) A complicada influência dos aerossóis sobre o nosso clima se tornou ainda mais ameaçadora: eles podem fazer do metano um gás causador de efeito-estufa ainda mais potente do que as estimativas anteriores indicavam, dizem cientistas que desenvolvem modelos climáticos.

Drew Shindell, do Instituto Goddard de Estudos Espaciais, parte da Administração Nacional da Aeronáutica e Espaço (Nasa), em Nova York, desenvolveu modelos computadorizados pata demonstrar que o potencial de aquecimento global do metano é maior quando ele se combina a partículas atmosféricas dos aerossóis, como a poeira, o sal marinho, sulfatos e carbono escuro.

O Painel Internacional sobre a Mudança Climática (IPCC) e tratados internacionais como o Protocolo de Quioto presumem que o metano seja, em termos de equivalência de volume, 25 vezes mais poderoso que o dióxido de carbono, no que tange ao aquecimento global. Mas a interação com aerossóis eleva o fator relativo de aquecimento global (GWP) do metano a cerca de 33, embora ainda reste muita incerteza quanto ao número exato.

No Protocolo de Quito, o GWP é usado para orientar as negociações de direitos de emissão. "O estudo diz que esses GWPs deveriam ser revisados, porque estão desconsiderando um dado importante", segundo Shindell.

Ele também acredita que as autoridades que estão debatendo como combater o aquecimento global precisam dedicar mais atenção à restrição de poluentes de vida curta, como o metano, o monóxido de carbono, os compostos orgânicos voláteis (COV) e aerossóis. Isso poderia criar mudanças significativas no clima mundial e local com bastante rapidez, ele afirma, enquanto os efeitos dos esforços para reduzir as emissões do duradouro dióxido de carbono ainda demorarão alguns anos a se fazer sentir.

"Os compostos de curta duração são realmente poderosos", ele acrescenta. O trabalho que ele dirigiu foi publicado pela revista Science.

A influência ampliada atribuída ao metano é interessante, de acordo com Frank Dentener, do Instituto de Meio Ambiente e Sustentabilidade da União Europeia, em Ispra, Itália. Ele aponta que um corte de emissões de metano muitas vezes pode ser realizado a custo zero, e poderia até resultar em lucro, se o gás for recolhido para venda, ou se um processo mais eficiente e que gere menos emissões for desenvolvido.

Modelos contraditórios
Metano, aerossóis e outros poluentes de curta duração têm um relacionamento químico complicado, e os modelos de Shindell só puderam capturar uma parte do processo. Por exemplo, o metano conduz a uma formação mais vigorosa de ozônio na troposfera, o que pode reduzir o rendimento das safras agrícolas.

Também termina por se oxidar e se converter em dióxido de carbono; ou muda por obra de outra reações químicas e pode formar vapor de água - que também é agente do efeito-estufa- na estratosfera. Um outro exemplo envolve a reação entre o metano e o hidroxil, que reduz o volume desse segundo produto químico disponível para criar aerossóis refrigerantes, de sulfatos.

Os modelos não levam todos esses processos em conta de maneira integral, por enquanto. Mas o esforço para combinar a química do ozônio e a química dos aerossóis já representa um avanço, diz Dentener. "Em lugar de estudar componentes isolados, eles consideram de forma muito mais detalhada o que as emissões desses componentes causarão para toda uma sequência de coisas".

Shindell diz que os futuros modelos climáticos de longo prazo deveriam começar a incluir mais desses processos secundários locais.

"Sabemos como essas coisas acontecem na atmosfera", ele afirma. "A atual estratégia de presumir que seus efeitos sejam zero é uma má escolha". Os aerossóis e gases de curta duração não são completamente ignorados.

"O estudo foi publicado em momento oportuno", disse Greg Carmichael, cientista do clima na Universidade de Iowa, em Iowa City. "Há uma crescente conscientização entre as autoridades, e na comunidade científica, quanto à importância dos próximos meses como oportunidade de vincular as preocupações quanto ao clima e à qualidade ao ar".

Recentemente cientistas e representantes de governos se reuniram em Gotemburgo, na Suécia, para uma oficina de discussão de políticas alternativas para o clima.

Dentener acautela que os cálculos necessários a calcular o novo GPW são bem complicados¿. Ele quer que outros especialistas em desenvolvimento de modelos computadorizados tratem do problema, para permitir um consenso científico. Mas acrescentou que as autoridades começam a compreender que precisa existir um equilíbrio entre as estratégias de curto e de longo prazo.

O efeito positivo e negativo dos poluentes do ar precisa ser considerado com seriedade, disse Almut Arneth, da Universidade de Lund, na Suécia. Ela afirma que a maior parte da avaliações sugere que o efeito de refrigeração dos sulfatos no momento tem peso superior ao efeito de aquecimento do carbono escuro. Assim, impor leis que removam os poluentes do ar, especialmente os sulfatos, poderia causar rápido aquecimento do clima.

"Se queremos começar a desenvolver políticas climáticas realmente efetivas, temos de considerar também a poluição do ar", afirmou. Shindell apela ao IPCC que considere "não só o clima mas todo o ecossistema e os impactos de saúde, no combate aos poluentes". Isso poderia ajudar em curto e em longo prazo, afirma. "Espero que a próxima rodada de discussões do IPCC seja melhor. Ainda não vejo muita ênfase em soluções climáticas de curto prazo".

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