quarta-feira, 22 de maio de 2013

Ver o fundo do mar através do som

Cientistas de Aveiro e Lisboa dão aulas de ciências do mar a bordo de uma caravela



(Ciência Hoje - Portugal) “Segurança” é a palavra-chave a bordo de um navio e foi o primeiro conceito transmitido aos 24 alunos do quarto ano da Escola EB72 - Padre Bartolomeu de Gusmão, Lisboa, quando chegaram à Caravela Vera Cruz. Coletes salva-vidas colocados é tempo de partir nesta aventura pelo Estuário do Tejo para conhecer como se estuda o mar.

A bordo estão também cientistas da Universidade de Aveiro (UA) e investigadores do Centro de Oceanografia da Universidade de Lisboa para explicarem como funcionam dois aparelhos utilizados para conhecer melhor o mar: um sonar e uma sonda CDT.

“Temos um sonar de varrimento lateral que tem dois sensores laterais que tiram fotografias com um alcance de cem metros para cada lado. Este aparelho tem ainda um Chirp Sonar (Reflexão Sísmica de alta resolução) que permite ver o que se passa abaixo do fundo, este chega a visualizar 60 metros abaixo. Pode-se dizer que vemos o fundo do mar através do som”, explica Luís Menezes Pinehrio, da UA.

A tripulação ergue o sonar com sistema Edgetech 512c e, lentamente, deixa-o deslizar até à água. Tudo a postos para deixar a Doca do Espanhol, em Lisboa, e explorar o rio Tejo, até próximo do Padrão dos Descobrimentos, a uma velocidade de quatro nós.

A Vera Cruz, uma réplica de uma caravela quinhentista, está a ser conduzida por uma tripulação da Associação Portuguesa de Treino de Vela (Aporvela). Esta réplica foi construída em 2000 no estaleiro naval de Vila do Conde no âmbito da comemoração dos 500 anos do descobrimento do Brasil.

A Ponte 25 de Abril ergue-se imponente diante dos nossos olhos mal saímos da doca. O leme volta ao centro, depois de girar a estibordo e bombordo para colocar a caravela da direcção pretendida, e a embarcação avança segura apesar do vento forte. A viagem de hoje não é de descobrir novos mundos, como outrora, mas de descobrir aquilo que está por baixo da superfície da água. O sonar começa a emitir os primeiros resultados. No ecrã de um computador aparece uma imagem composta por manchas amarelas e pretas. As amarelas são areia, as pretas sedimentos, como por exemplo rochas.

“Vamos lá ver quem descobre o navio afundado?”, pergunta Telmo Carvalho, director executivo da EurOcean – European Centre for Information on Marine Science and Technology, parceiros nesta iniciativa.

Os jovens estudantes ficam de olhos pregados ao ecrã. O navio afundado há-se ser uma mancha preta. Poucos minutos, algumas coordenadas enviadas para o comandante para que a embarcação passasse pelo local do navio afundado, e eis que a mancha preta surge. Em euforia ouve-se “está aqui, está aqui”, quando no ecrã surge uma grande mancha preta com a forma de um barco visto de lado.

“O sonar permite conhecer a geologia que nesta zona é muito rica. Verificamos, por exemplo, toda a
zona de basalto do complexo vulcânico de Lisboa, calcários, vemos rochas a aflorar no fundo, zonas sem sedimentos e permite claro ver navios afundados, embora não seja essa a nossa prioridade”, comenta Luís Menezes Pinheiro.

Para o investigador da Universidade de Aveiro, este conhecimento do fundo do mar é de extrema relevância “se Portugal quer realmente fazer alguma coisa com o mar”, afirma Luís.

Na proa da Caravela Vera Cruz há movimentações. A equipa do Centro de Oceanografia da Universidade de Lisboa prepara-se para colocar na água a sonda CTD (Conductivity, Temperature, Depth) que leva agregado um correntómetro.

“O CDT permite medir os níveis de salinidade e temperatura da água. O correntómetro emite sons que batem nas partículas da água e fazem um eco que volta à sonda, o eco enviado vem numa frequência diferente. A medição da frequência permite perceber a velocidade que as partículas se deslocam e logo das correntes”, explica Isabel Âmbar, do Centro de Oceanografia.

Os 24 alunos da Escola Padre Bartolomeu de Gusmão tiveram ainda oportunidade de girar o leme sob as ordens do comandante e aprender a dar nós de marinheiro. No total desta iniciativa de três dias, com duas viagens por dia de quatro horas, participaram estudantes de cinco escolas de Lisboa, Coimbra, Ovar e Viana do Castelo.

“Espera-se com esta iniciativa dar a oportunidade aos jovens estudantes do ensino básico e secundário de participarem numa campanha a bordo de uma caravela e ficarem a conhecer alguns dos principais métodos utilizados no estudo dos oceanos e fundos marinhos, motivando-os para as Ciências do Mar em Portugal e a sua importância”, explica Luís Menezes Pinheiro.

Esta iniciativa surge no âmbito do Projecto Europeu EUROFLEETS, no qual participam a Fundação para a Ciência e Tecnologia e a Fundação EurOcean, e que tem como objectivos, entre outros, a coordenação das frotas europeias de investigação científica e a divulgação da importância destas plataformas para as Ciências do Mar.

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