sexta-feira, 27 de abril de 2012

Aventura na Lapônia

A história do matemático Maupertuis, que precisou enfrentar o frio para confirmar uma hipótese científica






Os arcos de meridiano (em vermelho) são a distância, na superfície da Terra, entre dois pontos formados por um ângulo imaginário no centro do planeta. Usando o mesmo ângulo próximo ao pólo norte e próximo à linha do equador, encontramos valores diferentes. Mais próximo ao pólo, o arco de meridiano é menor, o que confirma a ideia de que a Terra é levemente achatada nos pólos (Arte: Sofia Moutinho sobre imagem da NASA).



(Ciência Hoje das Crianças) Muitos cientistas que eu conheço são pessoas aventureiras, que gostam de viajar, acampar, mergulhar, escalar montanhas ou andar de jipe por aí. Por outro lado, hoje, poucos deles precisam ser aventureiros no seu trabalho cotidiano. No passado não era bem assim: para fazer ciência, muitas vezes era preciso escalar montanhas, fazer longas viagens e se arriscar em lugares inóspitos.

Vejam, por exemplo, o caso do matemático e filósofo francês Pierre Louis Maupertuis (pronuncia-se “môpertuí”), que viveu no início do século 18. Naquela época, as ideias do matemático e filósofo natural inglês Isaac Newton a respeito do formato da Terra estavam sendo debatidas com muita empolgação na França. Newton argumentava que, como a Terra gira em torno de si mesma, ela não deveria ser uma bola perfeita, mas uma bola ligeiramente achatada.

Para descobrir se isso realmente acontecia, a Academia de Ciências da França resolveu organizar duas expedições paralelas. Uma iria para uma região próxima à linha do equador medir um arco de meridiano por lá – isto é, a distância ao longo da superfície da Terra que correspondia a um certo ângulo em relação ao centro da Terra (veja a figura).

Ao mesmo tempo, uma segunda expedição seria enviada para uma região próxima a um pólo da Terra para fazer a mesma coisa. Se Newton estivesse certo, a segunda expedição deveria encontrar um valor menor para o arco de meridiano do que a primeira.

Maupertuis foi encarregado da segunda expedição, que viajou até a Lapônia, região do norte da Suécia, bem perto do pólo norte. Eles precisaram usar trenós puxados por renas (mais ou menos como aqueles do Papai Noel) para atravessar florestas de pinheiros tomadas de neve e lagos congelados. Também tiveram que subir montanhas geladas e montar abrigos de madeira ao longo do caminho, lutando contra o frio, o cansaço, a fome e a saudade de casa.

Depois de meses de medições, retornaram à França e compararam os valores encontrados com os da primeira expedição, que acabara de chegar do Peru, na América do Sul – o que também foi uma grande aventura, embora muito menos fria. Os resultados mostraram que Newton tinha razão: a Terra era mesmo um pouquinho achatada!

Essa história inspirou Voltaire, um escritor francês que morou na Inglaterra e era um grande admirador da obra de Newton, a observar com um certo sarcasmo que “vous avez trouvé par des immenses ennuis ce que M. Newton le savait sans sortir de chez lui”, isto é, traduzindo, “vocês encontraram, através de imensas dificuldades, aquilo que o Sr. Newton já sabia sem sair de casa”.

Pode até ser. Mas quem, no final, teve as melhores histórias de aventura para contar? Aposto que foi Maupertuis!

2 comentários:

  1. O texto afirma que, se Newton estivesse certo, a expedição enviada à região próxima ao polo da Terra deveria encontrar um valor menor para o arco de um grau de meridiano do que a expedição enviada à região próxima à linha do equador. Entretanto, os resultados foram justamente contrários: o arco de um grau de meridiano medido na Lapônia foi maior que na região do Equador: 111.949 m contra 110.651 m. Além disso, está incorreta a representação dos arcos convergindo para o centro da Terra. Apenas na concepção esférica do planeta isso seria correto.

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